Agosto Lilás: o combate à violência contra a mulher precisa continuar o ano inteiro
Campanha nacional reforça prevenção e enfrentamento à violência contra as mulheres; em 2026, mobilização ganha significado especial com os 20 anos da Lei Maria da Penha.

O mês de agosto caminha para os últimos dias, mas uma das principais mensagens do Agosto Lilás não deve terminar quando o calendário chegar a setembro. A campanha nacional de conscientização pelo fim da violência contra a mulher reforça uma realidade que exige atenção permanente: agressões físicas, ameaças, humilhações, perseguições, violência sexual, controle financeiro e outras formas de abuso podem acontecer durante todo o ano, muitas vezes dentro de casa e longe dos olhos de familiares, amigos e vizinhos.
Em 2026, o Agosto Lilás carrega um significado histórico. No último dia 7 de agosto, a Lei Maria da Penha completou 20 anos. Sancionada em 2006, a Lei nº 11.340 tornou-se o principal marco jurídico brasileiro de prevenção e enfrentamento à violência doméstica e familiar contra as mulheres. O próprio Agosto Lilás foi instituído nacionalmente pela Lei nº 14.448/2022, estabelecendo agosto como período dedicado à proteção da mulher e à conscientização para o fim da violência.
Duas décadas depois da criação da Lei Maria da Penha, o desafio permanece. Dados divulgados neste mês mostram que a Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 registrou 1.035.647 atendimentos entre janeiro e julho de 2026, aumento de 90,8% em comparação com o mesmo período de 2025. Dentro desse universo, foram contabilizadas 98.705 denúncias relacionadas à violência de gênero, crescimento de 15%. Violência psicológica, doméstica e física aparecem entre os principais registros. O aumento dos atendimentos também está relacionado à maior procura por informações e ao conhecimento da população sobre o serviço.
Os números ajudam a mostrar por que o Agosto Lilás não pode ser encarado apenas como uma campanha de um mês. A conscientização precisa chegar às famílias, escolas, ambientes de trabalho, comunidades e espaços públicos durante os 365 dias do ano. Identificar os primeiros sinais de uma relação abusiva pode ser fundamental para impedir que comportamentos de controle e intimidação evoluam para formas mais graves de violência.
E violência contra a mulher não significa somente agressão física. A Lei Maria da Penha reconhece diferentes formas de violência doméstica e familiar. A violência psicológica pode aparecer por meio de ameaças, humilhações, manipulação, isolamento e perseguição. A violência patrimonial pode envolver destruição ou retenção de bens, documentos e recursos financeiros. Também existem as violências moral, sexual e física.
No Pará, iniciativas desenvolvidas durante o Agosto Lilás também procuram chamar atenção justamente para manifestações menos evidentes da violência. Em Canaã dos Carajás, por exemplo, uma campanha realizada neste mês apresentou histórias de mulheres que enfrentaram diferentes situações de abuso, incluindo violência financeira iniciada de maneira silenciosa dentro de uma relação.
O encerramento de agosto, portanto, pode representar não o fim, mas o início de uma mobilização permanente. Familiares, amigos, vizinhos e colegas de trabalho também têm papel importante. Mudanças bruscas de comportamento, isolamento social, medo constante do companheiro, controle excessivo do celular, dinheiro ou roupas, ameaças, perseguições e lesões recorrentes podem indicar que uma mulher precisa de ajuda.
Também é importante evitar o julgamento da vítima. Romper uma relação marcada pela violência pode envolver medo, dependência financeira, filhos, ameaças, isolamento emocional e receio de represálias. A rede de proteção existe justamente para oferecer caminhos de orientação, acolhimento e segurança.

Nos últimos anos, a legislação brasileira também passou por mudanças para ampliar essa proteção. Em 2026, novas normas alteraram dispositivos relacionados à Lei Maria da Penha, incluindo mecanismos de monitoração eletrônica de agressores e reforço das medidas destinadas a prevenir a repetição de ameaças e agressões.
Outro avanço importante ocorreu justamente neste Agosto Lilás. O Supremo Tribunal Federal decidiu que a proteção prevista na Lei Maria da Penha pode alcançar situações de violência de gênero mesmo sem vínculo familiar, afetivo ou íntimo entre vítima e agressor, ampliando o entendimento sobre a aplicação da legislação.
Para buscar orientação ou denunciar situações de violência contra a mulher, existe o Ligue 180, serviço gratuito que funciona 24 horas por dia. A Central oferece acolhimento, orientação sobre direitos e serviços da rede de proteção, além de receber e acompanhar denúncias. Em situações de emergência ou quando uma agressão estiver acontecendo, deve-se acionar a Polícia Militar pelo 190.
Mais do que iluminar prédios de lilás ou realizar ações durante algumas semanas, a principal mensagem que fica em 2026 é que o combate à violência contra a mulher precisa continuar depois de agosto. Reconhecer sinais, acolher sem julgamento, informar sobre direitos, denunciar situações de violência e fortalecer a rede de proteção são atitudes que podem interromper ciclos de agressão e, em situações extremas, salvar vidas.
Agosto acaba. A responsabilidade de enfrentar a violência contra a mulher, não.




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