Fim da escala 6x1 avança no Senado e pode garantir dois dias de folga por semana aos trabalhadores
Proposta prevê redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, sem diminuição dos salários; mudança pode beneficiar milhões de brasileiros e depende de votação no Congresso.

Uma das mudanças mais aguardadas pelos trabalhadores brasileiros voltou ao centro das discussões em Brasília. A proposta que prevê o fim da tradicional escala de trabalho 6x1, na qual o empregado trabalha seis dias consecutivos e tem apenas um dia de descanso, avançou no Senado Federal e poderá transformar a rotina de milhões de profissionais em todo o país. A medida pretende reduzir a jornada máxima semanal de 44 para 40 horas, garantindo dois dias de descanso remunerado, sem qualquer redução salarial.
A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 221/2019 começou a ser discutida no Plenário do Senado na terça-feira (6) e passou pela segunda sessão de debates na quarta-feira (7). A terceira sessão está prevista para esta quinta-feira (8). O texto já recebeu aprovação da Câmara dos Deputados e da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, mas ainda precisa superar outras etapas antes de se tornar uma alteração definitiva na Constituição Federal.
Atualmente, a legislação brasileira permite jornadas de até 44 horas semanais, normalmente distribuídas em seis dias de trabalho, com apenas uma folga. Esse modelo é bastante utilizado em supermercados, lojas, restaurantes, farmácias e outros estabelecimentos comerciais. Caso a proposta seja aprovada, a nova regra poderá estabelecer uma jornada de cinco dias de trabalho e dois de descanso, ampliando o tempo disponível para convivência familiar, lazer, estudos e recuperação física dos trabalhadores.
Uma das principais garantias previstas na proposta é a manutenção integral dos salários. Isso significa que os empregados abrangidos pelas novas regras não poderão sofrer redução de remuneração em razão da diminuição da carga horária. A proteção também alcança contratos de trabalho já existentes e os pisos salariais, evitando que a mudança na jornada represente perda financeira para os profissionais.

A implementação, entretanto, não deverá ocorrer de maneira imediata. O texto estabelece um período de adaptação para empresas e trabalhadores. Na primeira etapa, dois meses após a publicação da emenda constitucional, a jornada máxima será reduzida de 44 para 42 horas semanais. Posteriormente, ao completar um ano e dois meses da publicação, o limite passará definitivamente para 40 horas semanais. Durante esse período, poderão ser realizados ajustes na organização das escalas, respeitando as condições previstas na legislação e nos instrumentos de negociação coletiva.
A proposta também prevê que um dos dois dias de descanso seja concedido preferencialmente aos domingos. Entretanto, isso não significa necessariamente que todos os trabalhadores terão folgas aos sábados e domingos. Atividades que funcionam durante toda a semana poderão adotar escalas diferenciadas, conforme as regras aplicáveis e os acordos coletivos. O objetivo é garantir mais descanso sem inviabilizar o funcionamento de serviços essenciais e de estabelecimentos que dependem de atendimento contínuo.
No Pará, a eventual aprovação da medida poderá provocar mudanças importantes na organização do comércio e dos serviços, especialmente em municípios como Belém, Ananindeua, Castanhal, Marabá, Parauapebas e Tomé-Açu, onde supermercados, lojas, restaurantes e outros empreendimentos utilizam diferentes escalas de trabalho. Empresários poderão precisar reorganizar equipes, horários e turnos, enquanto trabalhadores poderão conquistar mais tempo para atividades pessoais e familiares. Os efeitos concretos dependerão da regulamentação e da forma como cada setor se adaptará às novas regras.
A discussão também envolve possíveis impactos econômicos. Defensores da mudança argumentam que a redução da jornada poderá melhorar a qualidade de vida, diminuir o desgaste físico e emocional e contribuir para o aumento da produtividade. Durante os debates no Senado, o senador Paulo Paim (PT-RS) destacou experiências internacionais em que jornadas menores foram acompanhadas de resultados positivos para trabalhadores e empresas. Por outro lado, parlamentares preocupados com o impacto sobre o setor produtivo defendem maior flexibilidade para atividades que possuem características específicas, especialmente aquelas que precisam funcionar diariamente.

O avanço da proposta também movimenta os bastidores políticos em Brasília. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), afirmou que pretende respeitar o rito regimental de discussão e votação. Integrantes da oposição demonstraram preocupação com o calendário de análise da matéria, enquanto parlamentares favoráveis à mudança defendem maior rapidez na tramitação. A previsão é que a votação em primeiro turno possa ocorrer na próxima semana, embora o calendário ainda esteja sujeito a alterações.
Para ser aprovada no Senado, a PEC precisará receber pelo menos 49 votos favoráveis entre os 81 senadores, em cada um dos dois turnos de votação. Antes da primeira votação, o texto deve passar por cinco sessões de discussão. Caso seja aprovado, ainda serão necessárias três sessões de debate antes do segundo turno, salvo eventual alteração do calendário regimental. Se aprovado sem mudanças que exijam nova análise da Câmara, o texto poderá seguir para promulgação.
Apesar do avanço, é importante destacar que o fim da escala 6x1 ainda não está em vigor. Até que a proposta seja definitivamente aprovada e promulgada, permanecem válidas as regras atuais sobre a jornada de trabalho. A expectativa agora se concentra nas próximas sessões do Senado, que poderão definir os rumos de uma das principais mudanças trabalhistas discutidas no Brasil nos últimos anos.
A possível substituição da escala 6x1 por um modelo com dois dias de descanso representa mais do que uma alteração nos horários de trabalho. Para milhões de brasileiros, poderá significar uma nova organização da vida cotidiana, com mais tempo para a família, para o descanso e para atividades fora do ambiente profissional.



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