Por que o Pará não aderiu à Independência do Brasil em 7 de setembro de 1822?
Província permaneceu ligada a Portugal por quase um ano e só passou a integrar oficialmente o Brasil independente em 15 de agosto de 1823, após disputas políticas, revoltas e pressão militar.

Enquanto o Brasil celebra em 7 de setembro a Independência proclamada por Dom Pedro I em 1822, a história no Pará seguiu um caminho diferente. A então Província do Grão-Pará não reconheceu imediatamente o novo Império e permaneceu vinculada a Portugal por quase mais um ano. A adesão paraense somente seria oficializada em 15 de agosto de 1823.
Por que o Pará resistiu?
Uma das principais explicações está na própria organização da Amazônia durante o período colonial. Por muito tempo, o Grão-Pará manteve uma estrutura administrativa distinta daquela existente em outras partes da colônia, estabelecendo relações políticas e comerciais diretamente com Lisboa. Isso contribuiu para que as elites locais tivessem vínculos muito mais fortes com Portugal.
A presença portuguesa também era expressiva entre comerciantes e ocupantes dos principais cargos públicos. Com a Independência, parte dessa elite temia perder influência, privilégios e relações econômicas construídas durante o período colonial. Por isso, quando chegaram as notícias da ruptura promovida por Dom Pedro I, as autoridades paraenses inicialmente optaram por continuar ligadas à Coroa portuguesa.
Mas a resistência estava longe de representar toda a população.
Dentro da própria província surgiram movimentos favoráveis à adesão. Em abril de 1823, Belém registrou uma revolta em defesa da Independência. Personagens como Felipe Patroni e o cônego Batista Campos tiveram participação importante na circulação de ideias contrárias à manutenção do domínio português.
No Marajó, a situação foi ainda mais emblemática: Muaná chegou a aderir à Independência em 28 de maio de 1823, antes mesmo de Belém. A reação das forças portuguesas, entretanto, sufocou o movimento poucos dias depois.
Um blefe mudou os rumos da história
Diante da resistência de províncias que ainda não haviam aderido ao novo país, o governo de Dom Pedro I buscou consolidar territorialmente o Império.
Foi nesse contexto que entrou em cena o oficial britânico John Pascoe Grenfell, que chegou ao Pará depois de atuar no processo de incorporação de outras regiões. Segundo registros históricos, Grenfell fez as autoridades locais acreditarem que possuía força militar suficiente para atacar e bombardear Belém caso a província continuasse recusando a adesão. Naquele momento, porém, grande parte das forças que sustentariam a ameaça ainda estava no Maranhão.
O blefe funcionou.
Pressionadas e já divididas internamente, as autoridades locais aceitaram o rompimento com Portugal. Em 15 de agosto de 1823, foi assinada a Ata de Adesão do Pará à Independência do Brasil, documento subscrito por mais de uma centena de pessoas e preservado pelo Arquivo Público do Estado.

A adesão não significou o fim dos conflitos
A entrada do Pará no Brasil independente não trouxe imediatamente a autonomia e as transformações esperadas por parte dos grupos que apoiavam a ruptura com Portugal.
A centralização política do governo imperial provocou novas insatisfações. Poucos meses depois da adesão, os conflitos voltaram às ruas de Belém e culminaram em um dos episódios mais trágicos da história paraense: o Brigue Palhaço.
Centenas de pessoas foram detidas durante a repressão e parte dos presos foi confinada no porão de uma embarcação. Mais de 200 morreram. Registros do Arquivo Público apontam cerca de 256 vítimas, mortas por asfixia, sufocamento ou fuzilamento.
As tensões políticas e sociais não desapareceriam. A frustração com o poder central, as desigualdades e os conflitos que atravessaram aquele período contribuíram para formar o ambiente que, anos depois, desembocaria na Cabanagem, iniciada em 1835.
Por isso, para os paraenses, a Independência possui uma particularidade histórica: 7 de setembro de 1822 não significou imediatamente a integração do Pará ao novo país. Essa ruptura somente seria formalizada quase um ano depois, em 15 de agosto de 1823 — data que atualmente é feriado estadual no Pará.




Comentários