Terra Indígena no Pará enfrenta 50 dias seguidos de queimadas e MPF cobra ação urgente
Território Apyterewa, em São Félix do Xingu, registrou 687 focos de calor em apenas 21 dias de setembro; indígenas Parakanã relatam morte de animais e dificuldades para combater as chamas.

A Terra Indígena Apyterewa, localizada no município de São Félix do Xingu, no sul do Pará, enfrenta uma sequência de aproximadamente 50 dias de queimadas. O avanço do fogo sobre o território ocupado pelo povo Parakanã provocou a reação do Ministério Público Federal (MPF), que cobrou providências urgentes dos órgãos responsáveis pelo combate aos incêndios florestais.
Segundo informações divulgadas nesta quarta-feira (23), indígenas afirmam que os incêndios teriam sido provocados por invasores. Moradores da região vêm tentando combater as chamas e impedir que o fogo avance em direção às aldeias, enquanto relatam dificuldades diante da dimensão dos incêndios e da falta de equipamentos adequados.
Dados de monitoramento do Instituto Socioambiental (ISA), por meio da plataforma da Rede Xingu+, mostram a dimensão do problema. Entre os dias 1º e 21 de setembro, foram identificados 687 focos de calor dentro da Terra Indígena Apyterewa. Durante esse período, não houve um único dia sem registro de fogo no território.
O cenário se torna ainda mais preocupante quando analisado desde o início de agosto. Conforme o levantamento, os incêndios vêm sendo registrados de forma contínua desde o dia 4 de agosto.

Um dos momentos mais críticos ocorreu em 19 de setembro, quando foram detectados 104 focos de calor em apenas 24 horas, número apontado pelo monitoramento como recorde histórico para o território. Os dias 14 e 20 de setembro também apresentaram elevada intensidade do fogo.
Com aproximadamente 773 mil hectares, a Terra Indígena Apyterewa é uma das áreas historicamente pressionadas pelo desmatamento no país. O território passou recentemente por um processo de desintrusão para retirada de ocupantes não indígenas e garantia da posse da área ao povo Parakanã.
Além dos danos provocados à vegetação, os incêndios também atingem a fauna. Registros feitos pelos próprios indígenas mostram animais encontrados mortos em áreas atingidas pelas chamas. A comunidade também denunciou episódios envolvendo invasores armados, incluindo o registro de um cavalo que teria sido atingido por disparos.
Diante da situação, integrantes do povo Parakanã relatam que estão tentando conter o avanço das chamas utilizando os recursos disponíveis, especialmente para impedir que o incêndio alcance áreas próximas às aldeias. Segundo os relatos divulgados, até esta quarta-feira (23), eles ainda reclamavam da ausência de equipes diretamente no local para auxiliá-los.
MPF cobra providências
O agravamento dos incêndios levou o Ministério Público Federal a reiterar, em caráter de urgência, pedidos de informações ao Ibama/Prevfogo e ao 31º Grupamento Bombeiro Militar, em São Félix do Xingu.
O MPF solicitou esclarecimentos sobre as medidas emergenciais adotadas para controlar os incêndios dentro da Terra Indígena Apyterewa. O comando local do Corpo de Bombeiros também foi acionado para o envio de reforço à região.

Ibama cita risco de conflitos armados
Em posicionamento divulgado sobre o caso, o Ibama informou que a situação está sendo acompanhada e afirmou que as ações de combate ao fogo continuam na região.
O órgão também apontou dificuldades relacionadas à segurança das equipes. Segundo o Ibama, em 26 de agosto, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) acionou a Força Nacional para apoiar tanto as atividades de combate aos incêndios quanto a proteção das equipes que atuam no território.
A medida estaria relacionada ao risco de conflitos armados na região, considerada uma área de elevada tensão após o processo de retirada de ocupantes não indígenas.
Ainda conforme o Ibama, a situação da Apyterewa está sendo acompanhada pelo Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional (Ciman) Federal.
Até a publicação das informações que deram origem à reportagem, o Corpo de Bombeiros Militar do Pará ainda não havia apresentado posicionamento sobre os relatos relacionados à ausência de equipes diretamente na linha de frente do combate aos incêndios.



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