Alunas do Pará transformam caroço de açaí em solução para tratar água
Projeto desenvolvido por estudantes de Parauapebas aproveita taninos presentes no caroço do fruto para criar um coagulante natural; iniciativa paraense chegou à semifinal de competição nacional de ciência e tecnologia.

Um produto presente diariamente na mesa dos paraenses e que gera uma grande quantidade de resíduos pode ganhar uma nova utilização por meio da ciência. Quatro alunas de uma escola pública de Parauapebas, no sudeste do Pará, estão desenvolvendo uma tecnologia que utiliza o caroço do açaí como matéria-prima para auxiliar no tratamento de águas impactadas por resíduos minerais.
As estudantes são da Escola Estadual de Ensino Médio Irmã Dulce e desenvolveram o projeto “Euterpe-Aqua: Da Biomassa do Açaí à Tecnologia de Recuperação Hídrica”, sob orientação do professor Roberto Costa da Silva.
A iniciativa nasceu da observação de dois problemas presentes na realidade local: de um lado, a grande quantidade de caroços de açaí descartados depois do processamento da fruta; de outro, os desafios relacionados à preservação e recuperação dos recursos hídricos em uma região marcada pela atividade mineradora.
A partir dessa realidade, as estudantes passaram a pesquisar possibilidades de aproveitamento do caroço do açaí e chegaram aos taninos, substâncias de origem vegetal que podem atuar como coagulantes naturais.
A proposta das jovens pesquisadoras é extrair esses compostos da biomassa do açaí e investigar sua utilização no processo de separação de resíduos minerais presentes na água. Dessa maneira, um material normalmente descartado pode se transformar em matéria-prima para uma alternativa de recuperação hídrica.
Tecnologia paraense chega à semifinal nacional
A inovação desenvolvida em Parauapebas conquistou espaço fora do Pará. O projeto está entre os semifinalistas da 13ª edição brasileira do Solve for Tomorrow Brasil, programa voltado a estudantes e professores do Ensino Médio da rede pública.
A iniciativa incentiva jovens a buscarem soluções para problemas reais de suas comunidades por meio da abordagem STEM, que integra conhecimentos de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática.
Mais do que apresentar uma ideia teórica, as estudantes paraenses estão trabalhando na construção de um sistema capaz de colocar o projeto em prática.
Estudantes desenvolvem usina piloto automatizada
Uma das etapas mais importantes da pesquisa é o desenvolvimento de uma usina piloto automatizada para realizar o processo de extração dos taninos do caroço de açaí.
O protótipo utiliza a plataforma Arduino, tecnologia que permite programar e controlar diferentes etapas do equipamento. No projeto das estudantes, o sistema auxilia no controle de procedimentos como o aquecimento e a agitação da biomassa durante o processo de extração.
A equipe trabalha atualmente no aperfeiçoamento do protótipo, na programação do equipamento e na realização de testes para avaliar e aprimorar o processo de obtenção dos taninos.
As estudantes também pesquisam possibilidades para o aproveitamento do material que permanece depois da extração, ampliando o caráter sustentável da iniciativa.

Ciência ligada à realidade da Amazônia
Além do desenvolvimento tecnológico, o Euterpe-Aqua chama atenção por utilizar um resíduo diretamente relacionado à cultura e à economia amazônicas para buscar uma resposta a outro desafio presente na própria região.
Parauapebas possui intensa atividade mineradora, cenário em que questões envolvendo qualidade da água, tratamento de efluentes e preservação dos recursos hídricos possuem relevância ambiental.
Ao mesmo tempo, o consumo e processamento do açaí produzem uma quantidade significativa de caroços que precisam receber destinação adequada.
O projeto conecta essas duas realidades ao investigar se a biomassa descartada pode contribuir para o desenvolvimento de uma alternativa vegetal aplicada à recuperação da água.
A tecnologia ainda está em fase de desenvolvimento e testes, portanto não se trata, neste momento, de um método pronto para substituir sistemas convencionais de tratamento. O objetivo das estudantes é aperfeiçoar o protótipo e avaliar as possibilidades de aplicação da solução.
A participação na competição nacional também evidencia o protagonismo de jovens mulheres paraenses na ciência e mostra como pesquisas desenvolvidas dentro da escola pública podem partir de problemas cotidianos para buscar soluções ambientais adaptadas à realidade amazônica.
Com o avanço dos testes, as estudantes esperam continuar aprimorando a tecnologia e investigar seu potencial para contribuir futuramente com comunidades e regiões que enfrentam problemas relacionados à qualidade da água.




Comentários