Diretora da COP30 acusa Estados Unidos de dificultar avanço de políticas climáticas no mundo
Ana Toni afirma que pressões comerciais de Washington afetam decisões de outros países e cobra maior participação financeira das nações ricas no enfrentamento às mudanças climáticas.

A diretora-executiva da COP30, Ana Toni, afirmou nesta quarta-feira (7) que a estratégia comercial adotada pelos Estados Unidos tem exercido influência negativa sobre a implementação de políticas climáticas em outros países. A declaração foi dada em entrevista à agência AFP, às vésperas de uma nova rodada de discussões internacionais sobre o clima, prevista para novembro, em Antalya, na Turquia. Toni também criticou o que classificou como falta de solidariedade das economias mais ricas com países em desenvolvimento, que reivindicam mais recursos para adaptação aos impactos das mudanças climáticas.
À frente da estrutura executiva da COP30 realizada em Belém, em 2025, Ana Toni avaliou que as políticas norte-americanas ultrapassam as fronteiras dos Estados Unidos e acabam interferindo na capacidade de outras nações cumprirem compromissos de redução das emissões de gases de efeito estufa. Na avaliação da dirigente, Washington tem influenciado, de forma direta e indireta, a velocidade com que outros governos conseguem avançar em suas estratégias de descarbonização.
Um dos fatores apontados por Toni é a disputa econômica e geopolítica entre Estados Unidos e China. Segundo ela, alguns países passaram a demonstrar maior resistência à importação de tecnologias chinesas de baixo carbono por receio de retaliações comerciais norte-americanas. A diretora também afirmou que pressões para a aquisição de produtos fabricados nos Estados Unidos e com maior intensidade de carbono podem dificultar o cumprimento de metas climáticas mais ambiciosas.
A dirigente relacionou ainda a discussão climática à segurança energética e econômica. Para Toni, acontecimentos recentes que provocaram escassez de combustíveis e aumento dos preços da energia reforçam os riscos da dependência excessiva de petróleo e outros combustíveis fósseis. Nesse contexto, a transição energética não seria apenas uma ferramenta de combate ao aquecimento global, mas também uma questão de soberania e proteção das economias contra crises internacionais.
A discussão sobre petróleo, carvão e gás permanece como um dos principais obstáculos das negociações climáticas. Na COP28, realizada em Dubai em 2023, os países aprovaram um compromisso que apontava para uma transição para longe dos combustíveis fósseis. Dois anos depois, durante a COP30 em Belém, o tema não avançou como esperado no documento principal da conferência, diante da resistência de países produtores.
Após a conferência realizada na capital paraense, a Presidência brasileira da COP30 assumiu o compromisso de trabalhar na elaboração de um “mapa do caminho” para a transição para longe dos combustíveis fósseis. Ana Toni teve participação direta na construção da iniciativa, que deverá ser apresentada no início de novembro. A proposta, segundo ela, não estabelecerá metas numéricas ou calendários obrigatórios para cada país, mas buscará indicar caminhos gerais para que as nações reduzam gradualmente sua exposição ao petróleo, carvão e gás, considerando as diferentes realidades econômicas e energéticas.
Outro ponto de preocupação levantado pela diretora é o financiamento climático. Países em desenvolvimento defendem há anos maior contribuição financeira das economias mais ricas para investimentos em adaptação, prevenção de desastres, infraestrutura resiliente e redução das emissões. Toni lamentou a dificuldade de ampliar esses recursos e questionou o que ainda seria necessário acontecer para sensibilizar governos e sociedades das nações desenvolvidas diante dos efeitos cada vez mais visíveis das mudanças climáticas.

As declarações colocam novamente Belém e o legado da COP30 no centro do debate climático internacional. A conferência realizada na capital paraense em novembro de 2025 terminou com avanços em algumas áreas, mas sem incorporar ao documento principal um roteiro específico para combustíveis fósseis. A Presidência brasileira decidiu então continuar trabalhando no tema fora do acordo final, mantendo a discussão para as etapas seguintes das negociações internacionais.
A próxima etapa ganha importância porque deverá mostrar até que ponto os compromissos discutidos na Amazônia conseguirão sair do campo diplomático e produzir medidas concretas. Para Ana Toni, a transição energética precisa considerar as diferentes condições de cada país, mas todos podem avançar na redução da dependência dos hidrocarbonetos. O desafio permanece em conciliar segurança energética, desenvolvimento econômico, financiamento climático e redução das emissões em um cenário internacional marcado por disputas comerciais e geopolíticas.




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